Eu gostava de saber escrever assim para poder contar uma história, uma grande história, uma bela história. Mas pode ser que um dia me caia um piano em cima da mona e eu tenha uma atak d´inspiração e escreva a dita história.
Ora acontece que o meu menino já há algum tempo me andava a dizer para eu ler a biografia do António Variações, o mestre minhoto das belas letras das musicas que o país inteiro anda a trautear já lá vão mais de 20 anos e que se hão-de manter vivas por muitos mais, o mestre muito à frente para a sua época, o grande António Variações.
Peguei então no livro numa noite destas e desatei a lê-lo. Não que eu leia muito rápido...porque só pego nos books lá pr´as meias noites, que é quando uma gaja se deita, quando não é mais tarde! E vai daí começo a ler a história da infância do mestre Variações, a sua infância. Linda de facto. Verde, airosa, feliz, robusta, musicalissima. Ao ler aquelas palavras que a jornalista Manuela Gonzaga escreveu com tanta mestria, graças aos depoimentos de amigos e familiares do mestre Variações, eu consegui identificar muitos momentos com histórias que eu já ouvi o meu menino contar. É o máximo! É a verdadeira verosimilhança na sua mais inabalável e insustentável leveza do ser.
Bem, lá fui lendo, lendo, até que chego a uma parte que me despertou um interesse mais acentuado, dado que sou dada à ciência...hihihi...é precisamente quando o mestre Variações vem viver para Lisboa, no ano de 1957! A descrição é linda e faz-me lembrar o que o meu pai já me descreveu desse ano, mais precisamente desse inverno!
Vou transcreve-la para aqui e depois você me dirão se naquela altura já EXISTIA O BURACO NO OZONO!!!!!
Ora cá vai:
"Quando António Joaquim Rodrigues Ribeiro chega a Lisboa, no principio de Janeiro de 1957, a cidade estava debaixo de um temporal. Vive-se um dos Invernos mais rigorosos de que há memória. Em 11 de Janeiro cai neve em muitos pontos do País. Depois, a vaga de frio que submerge toda a Europa chega a Portugal com o seu cortejo de aguaceiros, temporais, trovoadas e cheias. As violentas enxurradas não poupam campos, aldeias, vilas e cidades. As inundações no Porto e em Lisboa ilustram bem o ímpeto das tempestades, que a sul destroem os pomares , as hortas e as sementeiras do Algarve, as searas do Alentejo, e as lezírias Ribatejanas, que sepultadas sob um imenso lençol de água, não podem ser cultivadas. Enfim, o que resta é destruído pelas geadas. Em suma, estas cheias de proporções inauditas, vão desencadear uma tremenda crise rural no País.
Às inundações de Janeiro, segue-se, em Fevereiro, uma segunda vaga de frio ainda amais intenso, que transforma as águas em gelo, nos tanques, nas ruas, nas canalizações. A Basílica de Fátima aparece coberta de neve da noite de 23 para 24 de Fevereiro de 1957. No norte do País vai registar-se o maior nevão de que há memória, com os comboios bloqueados ou descarrilados, sob um manto branco de um metro de espessura. Desde 1860 não fazia tanto frio em Lisboa. Imagens para recordar: a água dos lagos do Rossio gela. Em São Pedro de Alcântara há estalactites nos chafarizes.
Toda a Europa, do Atlântico aos Balcãs, treme de frio e de horror num dos Invernos mais rigorosos de que há memória e que deixará atrás de si o saldo de muitas centenas de mortos. Prodigiosa vaga de frio que atinge, como se viu, a Península Ibérica, deixando grande parte de Espanha e Portugal cobertos de neve, chega ainda às Baleares e ao Norte de África. imagens raríssimas: Roma, tal como Paris, está sob neve, que no norte de Itália atinge os cinco metros de altura, uma situação que leva a que seja declarada calamidade nacional. Tempestades vindas do mar do Norte provocam o caos. Há inundações na Escócia, a Holanda e a Bélgica estão sob um densíssimo nevoeiro, e sofrem nevões intermináveis. A França e a Grã-Bretanha são fustigadas por violentas rajadas de vento gélido. E em Londres registam-se mortes e intoxicações pela mistura de nevoeiro e smog que envolve a cidade e arredores. Na Grécia, lobos esfaimados atacam rebanhos e os passageiros de um comboio imobilizado pela neve. Os relatos sucedem-se arrepiantes e há centenas de mortos. Algures na Jugoslávia, uma barragem de gelo tem tem de ser demolida por bombardeamento aéreo. Fala-se numa semi-glaciaçao." (páginas 66 e 67)
O clima tem coisas inexplicáveis!!!!
Ok, depois desta passagem hei-de cá voltar para por outra! Este livro promete! Já o leram?
1 comentário:
Que belas "variações" aqui nos deixas, ó Xandra Força da Natureza! Estarrecedora, esta descrição da invernia de 1957. Olha, eu tinha 10 anos e não me lembro...
beijinhos...
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